Grâce à la liberté dans les communications, des groupes d’hommes de même nature pourront se réunir et fonder des communautés. Les nations seront dépassées.
Friedrich Nietzsche (Fragments posthumes XIII-883)

08 - JUI 03 - Hommage au commissaire GA


C'est en raison du manque de soutien de sa hiérarchie à qui n'a pu échapper le lynchage médiatique de la PJ et de sa personne en particulier et du besoin de ne pas laisser impunément salir son nom que le commissaire Gonçalo Amaral a donné sa démission et écrit "L'enquête interdite". Il explique cela clairement dans la préface. Si les médias britanniques, mais pas seulement, n'avaient pas crié haro sur le baudet, il n'aurait peut-être jamais écrit de livre.


Traduction - extrait par Astro

original de João Fernandes Figueira - 03.07.2008

Well, approximately one year ago, we all watched, stupefied, a sort of spectacle that had until then been unheard of, among us. Like in the witch hunts of the past, a certain media (mainly English, but unfortunately not only that) destroyed a Man from the Portuguese Polícia Judiciária in public. A high-ranking Criminal Investigation career official. A colleague and a friend to so many of us. A character assassination like no other employee of this House had ever been a victim of, before. And why?
Because, as had always been his hallmark, Dr. Gonçalo Amaral, a Polícia Judiciária Criminal Investigation Coordinator, went to fight, committed himself, faced, bravely and decidedly, the difficulties and the setbacks of a service case that is extremely complex and whose outlines are still undefined, and may remain so forever.
Maybe for the first time in the Polícia Judiciária's History, an investigator is exposed in public and his private life is rummaged. Merely because he was investigating a certain suspicious case. Because he was working. Maybe the Portuguese State, the Public Administration, our Polícia Judiciária, should have mechanisms in place to protect its representatives in situations like this one. In order to safeguard them as they carry out their professional activity for the benefit of Public Service. Maybe all of us, colleagues in profession, should have stood up, and honouring the so famous, so traditional and so bandied about "Esprit de Corps" that they say is characteristic of our "House", should have somehow manifested our support of Dr. Gonçalo Amaral.
None of that happened. Gonçalo was alone.



Quando, em fins de 1983 (já lá vão cerca de 25 anos) eu e alguns colegas, concluído o curso de formação na Escola, fomos colocados no Núcleo de Estágio a funcionar na então S.C.I.T.E./C.I.C.D., instalada ao fundo da Rua Conde de Redondo, ali fomos encontrar um grupo de investigadores policiais cujas características, individuais e de grupo, e a forma de trabalhar, nos levou (pelo menos à maior parte de nós) a ali querer ser definitivamente colocados.
De facto, a motivação e a dedicação ao serviço, o entusiasmo e alegria com que desempenhavam as suas funções, a competência e o profissionalismo que demonstravam foram, para nós, recém formados na Escola do Barro, a certeza de que a profissão que então iniciávamos se traduzia numa actividade plena de realização e numa carreira magnífica e com um futuro radioso.
Grande parte desses colegas eram sensivelmente da nossa idade, pouco mais antigos que nós, do curso imediatamente anterior e, assim, com o respectivo estágio recentemente terminado.
Entre eles estava o Gonçalo Amaral. Talvez com mais cabelo que agora e, eventualmente, um pouco menos pesado. No resto, era igual. Já na altura nos surpreendia a sua entrega à profissão, a competência que demonstrava, a segurança com que trabalhava, a coragem com que ia a todo o lado e enfrentava todo o tipo de situações e de adversários. Da mesma forma, era notória a boa disposição com que enfrentava as contrariedades e as adversidades da função, bem como a tolerância com que encarava as brincadeiras, às vezes irreverentes de um ou outro colega (e eu que o diga, que a consciência me acusa de o ter sido, não poucas vezes).
Posteriormente o Gonçalo viria a trabalhar em Faro e em Ponta Delgada. Sempre com a disponibilidade pessoal e a capacidade profissional que lhe são características. E em todas as inúmeras valências que revestem hoje o trabalho de um investigador da Polícia Judiciária. Investigando homicídios ou recolhendo informações sobre redes criminosas organizadas. Analisando documentação relativa a complexas movimentações financeiras ou capturando indivíduos perigosos. Sem fugir ás dificuldades nem esmorecer face às contrariedades. Dando a cara e indo à luta. Sempre.
De novo em Lisboa e no combate ao tráfico de droga, foi o Gonçalo nomeado, ainda como Agente, para chefiar uma Brigada de Investigação na D.C.I.T.E. Quem estava, nessa altura, nesse departamento, lembra-se que os resultados conseguidos por essa Brigada, sob a chefia carismática do Gonçalo Amaral, logo ultrapassaram a média das estatísticas. Os números conseguidos por si e pelos seus homens, quer quanto a indivíduos detidos, quer quanto a produto estupefaciente ou aos bens e valores apreendidos, quer, mesmo a condenações conseguidas em Tribunal marcaram uma época na D.C.I.T.E. e constituíram um exemplo.
Eu sei. Lembro-me bem. Estava lá.
Acumularia a chefia da Brigada com a condição de aluno universitário. E a sua forma característica de chefiar, sempre directa e frontal, num estilo de liderança permanente e plenamente assumido, sempre presente e sempre disponível, não o impossibilitou de, no mais curto espaço de tempo permitido, se licenciar em Direito. Não obstante a sua formação anterior ser de Engenharia.
Voltámos a encontrar-nos no curso de promoção a Subinspector. Uma vez mais o Gonçalo deu mostras da sua notável capacidade de trabalho, pois que fez este curso, intensivo e exigente, em acumulação com a chefia da Brigada de Investigação. Patente ficou, também e uma vez mais, a sua significativa capacidade de estudo, tendo concluído o curso em primeiro lugar entre 99 colegas.
Viria, posteriormente e na sequência lógica e natural da sua carreira profissional e do seu percurso de vida, a concorrer a Coordenador de Investigação Criminal e, como era de esperar, era promovido àquela categoria funcional pouco tempo depois.
Depois…
Bem, há cerca de um ano, todos nós assistimos, estupefactos, a uma espécie de espectáculo até então inédito entre nós. Como nos Autos de Fé do passado, certa comunicação social (principalmente inglesa, mas infelizmente não só essa) “derreteu” na praça pública um Homem da Polícia Judiciária portuguesa. Quadro superior da carreira de Investigação Criminal. Colega nosso e amigo de muitos de nós. Um assassínio de carácter como nenhum outro funcionário desta Casa tinha sido vítima até então. E porquê?
Porque, como sempre foi seu apanágio, o Dr. Gonçalo Amaral, Coordenador de Investigação Criminal da Polícia Judiciária, foi à luta, empenhou-se, assumiu, enfrentou, corajosa e decididamente, as dificuldades e as contrariedades de um caso de serviço muitíssimo complexo e de contornos ainda, e quiçá para sempre, indefinidos.
Talvez pela primeira vez na História da Polícia Judiciária, um investigador é exposto na praça pública e a sua vida privada devassada. Apenas por estar a investigar um determinado caso suspeito. Por estar a trabalhar. Talvez o Estado Português, a Administração Pública, a nossa Polícia Judiciária, devessem ter mecanismos para proteger os seus representantes em situações como esta. Para os resguardar no exercício da sua actividade profissional em proveito do Serviço Público. Talvez todos nós, colegas de profissão, nos devêssemos ter assumido e, fazendo jus ao famoso, tradicional e tão apregoado “Espírito de Corpo” que dizem característico da nossa “Casa”, nos devêssemos ter, de alguma forma, manifestado em apoio do Dr. Gonçalo Amaral.
Nada disso aconteceu. O Gonçalo ficou sozinho.
Se esta estratégia pegar, amanhã, face a arguidos poderosos e bem relacionados, poderão ser outros investigadores a sofrerem na pele esta provação. Poderá ser qualquer um de nós. E isso pode, de alguma forma, significar o fim da investigação criminal. Pelo menos da maneira como nós a encaramos e a desenvolvemos.
Que este caso nos sirva de reflexão. E de exemplo. E nos permita criar formas de evitar que se repita. A própria ASFICPJ deveria, talvez, analisar, séria, conscienciosa e exaustivamente, e de forma serena e construtiva, toda esta situação. É, também, sua obrigação.

Amigo Gonçalo, lamento sinceramente a tua saída da Polícia Judiciária, que me parece demasiado precoce porque admito que mais poderias dar à causa da Sociedade, da Justiça e do Serviço Público. A nossa “Casa”, para além disso, não dispõe de tantos recursos, em qualidade e quantidade, para se dar ao luxo de os não rentabilizar ou, pior ainda, de os deixar desperdiçar.
Resta-me, face à realidade dos factos, agradecer a tua amizade e desejar-te as maiores felicidades e os maiores sucessos na nova etapa da tua vida que agora decidiste iniciar.
João Fernandes Figueira
A.S.F.I.C./P.J. member nr. 711